terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cinema Nacional, “Projeta Brasil” e sessão dupla com Selton Mello

Ontem, dia 09 de novembro de 2009 a rede de cinemas Cinemark realizou a décima edição do projeto “Projeta Brasil”. O projeto, pra quem não ficou sabendo, consiste em reservar um dia por ano (é amigo, apenas um dia) para passar exclusivamente filmes do cinema nacional. Uma iniciativa destas desperta dois sentimentos bem contraditórios em mim. Por um lado acho extremamente importante que o cinema nacional seja valorizado, e que o público brasileiro possa ver as produções do seu país com um preço acessível e em horários confortáveis. Contudo, mesmo que o projeto tenha o caráter de apoiar a produção nacional, demonstra com clareza as fragilidades do nosso cinema.


Assim, na minha opinião, o cinema brasileiro tem tido um crescimento acelerado nos últimos quinze anos. Não quero dizer que o que foi produzido antes do início da década de 90 não tenha seu valor, muito pelo contrário, mas o grande público (e nisso eu coloco a maior parte da população que vai ao cinema em busca de diversão e pipoca) brasileiro (no qual eu também estou incluído) se acostumou a ver as grandes produções Hollywoodianas e deixou os filmes brasileiros de lado. As produções brasileiras das décadas de 70 e 80 hoje são cult’s, e tem até publico em circuitos alternativos de cinema, mas o grande público gosta mesmo é de ação, comédias, “pé na porta e tapa na cara”, roteiros simples (não confundir com ruins ou fracos) que divirtam e que não precise botar tanto assim a cabeça pra funcionar.


Voltando ao supracitado (=]) crescimento de qualidade, desde sei lá, “O que é isso companheiro” (Bruno Barreto, 1997) e “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998), o cinema brasileiro começou a ganhar mais prestígio fora do Brasil, e estranhamente, mas conseqüentemente, também aqui em terras tupiniquins. Desde então vários filmes vem à cabeça sem precisar pensar muito: “Bicho e Sete Cabeças” (Laís Bodanzky, 2001); “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 2002); “Carandiru” (Hector Babenco, 2003); entre muitos outros. Todos eles com uma grande qualidade de roteiro e produção, caramba, o que é a edição e a fotografia de “Cidade de Deus” (pra mim o Meirelles é um gênio), não deixa nada a deseja pros filmes de Hollywood. O problema é que mesmo com essa evolução técnica, parece que não conseguimos fugir do “cine favela” nem das “comédias de classe média”. São raros os filmes, pelo menos os que chegam ao circuito comercial que conseguem fugir dessa dupla de gêneros e fazer algo diferente. Mesmo apreciando cada vez mais o cinema brasileiro, não tive “coragem” de ir ao cinema ver “Última Parada 174” (Bruno Barreto, 2008) porque estava sem saco de ver de novo a mesma exploração da violência das grandes cidades e da pobreza. Poxa, o cinema brasileiro já conseguiu produzir filmes que falam da mesma coisa só que de uma forma diferente, por exemplo: “O Homem que Copiava” (Jorge Furtado, 2003), mostra a vida ferrada de uma cara que tem que se virar pra sobreviver. Ok, ó a pobreza ai de novo, mas ela não é o que se sobressai no filme, ela existe, mas você quer ver como o cara sai dessa pra poder conquistar a mulher que ama. Considero este filme uma comédia romântica que está ao mesmo nível de qualquer clássico de Hollywood como “Notting Hill” (Roger Michell, 1999), com o plus da boa malandragem brasileira. O Brasil pode, e consegue produzir filmes que saiam desse estereótipo, acredito que só falte um pouco de coragem de investir nesses projetos. E quem sabe assim, não seja necessário projetos especiais para levar o público brasileiro para assistir nosso próprio cinema.


Sobre a sessão dupla com Selton Mello, explico. Aproveitei o projeto do Cinemark para assistir dois filmes que me chamaram atenção: “A Mulher Invisível” (Cláudio Torres, 2009) filme que eu já tinha assistido na semana da estréia, e “Jean Charles” (Henrique Goldman, 2009) que não pude ver na época em que esteve em cartaz (acho que fiquei doente). Ambos tendo Selton Mello como protagonista. E em ambos ele rouba a cena, segura o filme e atua muito bem. Seja nas cenas engraçadas do primeiro, como a da boate, ou a que ele descobre que a Amanda é apenas imaginação dele, ou nas dramáticas do segundo, como a cena em que Jean telefona pra mãe, ele faz perfeitamente seu papel mostrando as emoções certas pros momentos certos. Sempre gostei do Selton como ator, desde a novela “A Indomada” onde ele interpretava um garoto meio autista que se apaixonara por uma prostituta, a saudosa Grampola. Gosto do Selton Mello como ator assim como gosto do Johnny Depp, sinto a mesma versatilidade nos dois, aquela sensação de ele pode fazer qualquer papel que estará em boas mãos. Ri com o Pedro Albuquerque e me emocionei com o Jean Charles. Indico ambos com muita vontade, e dou meus parabéns ao grande ator Selton Mello por ser, na minha humilde opinião, o grande nome da sua geração.


8 comentários:

  1. Parabéns, neguinho!!!
    Não sabia que vc escrevia tão bem assim....

    Beijão

    ResponderExcluir
  2. Sim meu caro André, o Brasil pode, consegue e já esta produzindo filmes que saiam desse esteriótipo.
    "Se eu fosse voce" por exemplo achei barbaro!
    "Olga" não conseguia parar de chorar e "Besouro" não vi ainda mas pela produção parece ser ótimo!Fora tantos outros...

    Bjoss xuxu!!

    ResponderExcluir
  3. A prova de que estamos saindo deste estigma é que tivemos uma FICÇÃO CIENTÍFICA com Sandyejunior, aquele guri que se veste de menina às vezes e é filha do casal Chitãozinho e Chororó.

    Brincadeiras à parte a verdade é que a bandeira do cine-pipoca americano já está fincada aqui, e por mais que nossos filmes algum dia tenham uma variedade maior de estilo, competir com tralhas americanas é impossível.

    Eu poderia até fazer uma analogia do texto do andré com minha eterna discussão sobre a missão do Zeebo, console da TecToy e investidoras para o mercado de países emergentes, mas fica para uma próxima.

    ResponderExcluir
  4. andréé!
    concordo com você, o esteriotipo não dá mais. Essa coisa de favela já me entala na garganta e não fui ver o "174" pelo mesmo motivo.
    Adorei os filmes que vimos na segunda feira e gostei (gosto) do Selton Mello nos dois. Concordo ctgo quando tu diz que ele passa as emoções certas nas horas certas, tem uma maturidade na frentes das cameras que impressiona. Só nos apaixonamos por ele em épocas distintas, acho "O auto da compadecida" uma das melhores comédias ever.
    Ah, não comentasse da parceria Brasil/Argentina (arght!) no filme "O Passado" do Babenco. Liiindo de morrer. Tudo, fotografia, triha(que trilha!!), roteiro e atuação. A mulher (Analía Couceyro) rouba a cena na atuação mas o lindo Gael García Bernal também está exemplar!

    Beijos fofinho,
    -=**
    pollyana

    ResponderExcluir
  5. nossaaaa querido e estimado salve salve sobrinho! Como você escreve bem.Assim vai se tornar crítico de cinema.Parabéns.
    Faltou "Meu nome não é Johnny" no seu comentário....também sou fã do Selton e se ele fosse americano ganharia um Oscar por este filme.

    ResponderExcluir
  6. Procure um filme que se chama "Durval Discos" e assista.

    ResponderExcluir
  7. Caramba... eh verdade tio, como eu esqueci do "Meu nome nao é Johnny"... acho ate q eh o melhor papel dele... bem lembrado...

    Quanto ao durval, podexá q eu assisto

    =D

    ResponderExcluir
  8. o que posso dizer?
    sim meu amigo, você escreve bem!
    O fato é que sou tão chata quanto vc, em certas questões, ou mais.
    Com relação aos filmes, digo q vc precisa fazer uma cadeira de cinema brasileiro para conhecer melhor as obras e o contexto cinematográfico da época, o que hoje vc diz ser cult teve sim reconhecimento, e isso sem falar da junção cinema e história.
    Outra coisa que notei, foi o comentário sobre o crescente prestigio do cinema brasileiro nos ultimos 15 anos porém, seria mais certo vc afirmar que este prestigio foi retomado. Exemplo, o Pagador de promessas, 1962 foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro de 63 e ganhou a Palma de Ouro em Cannes, entre outros.
    Não que eu também não aguente mais assistir o tal cine favela, mas como o cinema reflete sim a realidade a exploração do tema é natural e desgastante.

    ResponderExcluir